Nunca soube o que é ter um cão a sério. Faltou-me o pulso de um pastor alemão, o charme de um labrador, a graça de um pointer, o porte de um leão da Rodésia. Com tantas raças interessantes, tinha de me sair um cão de porteira. Pior só se fosse um caniche, tosquiado artisticamente num cabeleireiro da especialidade, chamado Fox Trot. O salão, entenda-se. O cão seria o costume: Piloto, Bobby, Tejo, Figo, Costa.
E depois, não quero ser mazinha, mas isto é tal e qual como tu dizes, homem e cão são duas faces da mesma moeda.
Os homens não roem sofás, mas moem-nos a paciência. Não cheiram a cão, mas dá vontade de lhes deitar a roupa fora cada vez que regressam de uma futebolada com os amigos. Também dão imenso trabalho a educar e muitos nem sequer se sabem alimentar sozinhos. São carentes, mimados, e não raro, gostam de provocar momentos bélicos com outros pares com quem se cruzam na vida.
A próxima vez que me aparecer um homem com cara de cão -têm-na quase todos- vou treinar as técnicas básicas de adestramento que passam por dar com o jornal no focinho cada vez que fizer asneira, premiar o bom comportamento com biscoitos e ossos coloridos para roer em êxtase, talvez até consiga ensinar a sentar, deitar, dar a pata, rebolar e fazer de morto sempre que me apetecer, a ver que resultado dá.
Não, não estou a brincar. Se calhar mando vir um 2 em 1, um homem que tenha um cão, para poder fazer o estudo comparativo das aptidões de cada um deles. Talvez chegue à conclusão de que o cão, embora mais limitado em termos intelectuais, tenha algumas vantagens, é fiel e não ressona. É obediente e não protesta. E quando se porta mal, em vez de ter de lhe explicar que é um imbecil, dobro o jornal e dou-lhe com o respectivo no focinho para o meter nos eixos.
Mas enquanto isso não acontece, continuo fiel à minha tartaruga que não rosna, não apanha doenças nem se queixa da vida que tem, feliz no seu universo aquático, a crescer devagarinho.
A grande e maravilhosa Margarida Rebelo Pinto

Sem comentários:
Enviar um comentário